Terapias expressivas é uma denominação abrangente para intervenções que empregam artes visuais, música, movimento corporal, dança, teatro, dramatização, escrita, poesia, narrativa e outras formas de criação em contextos terapêuticos. O termo pode incluir disciplinas profissionais centradas em uma linguagem específica — como arteterapia e musicoterapia — e abordagens intermodais, nas quais duas ou mais linguagens são articuladas durante o mesmo processo.[1]
As práticas partem do reconhecimento de que experiências emocionais, relacionais e corporais nem sempre são elaboradas apenas pela fala. Imagens, sons, gestos, personagens, metáforas e narrativas podem oferecer meios adicionais de comunicação e reflexão. Isso não significa que toda atividade artística seja terapia, nem que a produção de uma obra possua, por si só, efeito clínico previsível. Em uma intervenção terapêutica, objetivos, enquadre, consentimento, formação profissional, segurança e avaliação fazem parte do processo.
O campo é heterogêneo. As modalidades possuem histórias, teorias, formas de treinamento e graus de regulamentação diferentes. A expressão “terapias expressivas” não deve ser usada como se designasse uma técnica única, uma profissão universal ou um conjunto de procedimentos com eficácia equivalente para todos os problemas de saúde.
Aviso: este artigo tem finalidade informativa. Terapias expressivas não substituem avaliação médica, psicológica ou multiprofissional quando ela é necessária. Pessoas em crise, com risco de suicídio, sintomas psicóticos, agitação intensa ou agravamento clínico devem procurar atendimento de urgência ou o serviço de saúde responsável.
Definições e diferenças fundamentais
A International Expressive Arts Therapy Association utiliza expressive therapies ou creative arts therapies como termos guarda-chuva para modalidades terapêuticas baseadas em processos criativos. A entidade distingue esse conjunto da terapia pelas artes expressivas em sentido estrito, caracterizada pela articulação intermodal de várias linguagens, como desenho, música, movimento, teatro e escrita.[1]
Na abordagem intermodal, uma experiência pode passar de uma linguagem para outra. Uma pessoa pode, por exemplo, produzir uma imagem, responder a ela com movimento, criar um texto e depois refletir verbalmente sobre o percurso. A passagem entre modalidades não é simples variedade recreativa: ela é planejada de acordo com os objetivos, as condições e os limites da pessoa ou do grupo.
Algumas distinções evitam confusões frequentes:
- atividade artística: criação realizada por razões estéticas, culturais, educativas, sociais ou pessoais, sem necessariamente constituir tratamento;
- arte em saúde: presença de artistas, oficinas, apresentações ou projetos culturais em ambientes de saúde, que podem favorecer bem-estar, convivência e humanização, mas não são automaticamente psicoterapia;
- arte como recurso de um profissional: uso de desenho, música, dramatização ou escrita dentro das competências de uma profissão de base;
- terapia expressiva profissional: intervenção estruturada, conduzida por pessoa com formação compatível, objetivos definidos, responsabilidade ética e avaliação;
- terapia pelas artes expressivas intermodal: abordagem que integra deliberadamente diferentes linguagens durante o processo.
Uma oficina pode produzir efeitos subjetivamente benéficos sem ser apresentada como tratamento. Do mesmo modo, um atendimento clínico não se torna arteterapia ou musicoterapia apenas porque utiliza lápis, tinta ou canções. A denominação profissional depende da formação, da legislação e do contexto em que o serviço é oferecido.
Formação histórica internacional
Arte, música, dança, narrativa e ritual acompanham práticas de cuidado em numerosas sociedades. As profissões modernas ligadas às terapias expressivas, entretanto, formaram-se sobretudo no século XX, em diálogo com a psiquiatria, a psicologia, a educação, a reabilitação, a psicanálise, as abordagens humanistas e os movimentos comunitários.
Na arteterapia anglo-americana, nomes como Margaret Naumburg e Edith Kramer tornaram-se referências históricas. Naumburg enfatizou a expressão simbólica e sua relação com processos psicodinâmicos; Kramer destacou o potencial organizador e integrador do próprio fazer artístico. O campo posteriormente incorporou abordagens humanistas, cognitivas, desenvolvimentais, sistêmicas, comunitárias e informadas pelo trauma.[2]
A terapia pelas artes expressivas intermodal recebeu contribuições de educadores, psicoterapeutas e artistas que procuraram superar a separação rígida entre as linguagens. Natalie Rogers relacionou o processo intermodal à abordagem centrada na pessoa, enquanto Paolo Knill, Stephen Levine e Ellen Levine contribuíram para a consolidação teórica e formativa do campo.[3]
Outras modalidades desenvolveram tradições próprias. A musicoterapia profissional expandiu-se após a Segunda Guerra Mundial; a dança/movimento-terapia estruturou-se em torno da relação entre movimento, experiência corporal e vida psíquica; a dramaterapia integrou teatro e trabalho terapêutico; e o psicodrama, criado por Jacob Levy Moreno, organizou-se como método de ação grupal com etapas, papéis e técnicas específicas.
Principais modalidades
Terapia pelas artes expressivas intermodal
A terapia pelas artes expressivas utiliza duas ou mais linguagens de maneira integrada. Podem ser empregados desenho, pintura, modelagem, fotografia, colagem, voz, música, ritmo, movimento, dança, escrita, poesia, narrativa, teatro, objetos, imaginação guiada e práticas ligadas à natureza.
A escolha das modalidades considera idade, preferências, cultura, capacidade sensorial e motora, objetivos clínicos e possíveis riscos. Uma pessoa não precisa demonstrar habilidade artística. O foco costuma recair sobre o processo, os sentidos produzidos e a relação terapêutica, e não sobre a qualidade estética do resultado.
Arteterapia
A arteterapia utiliza recursos expressivos das artes em um processo terapêutico estruturado. Desenho, pintura, colagem, fotografia, modelagem, escultura, tecelagem e outras técnicas podem auxiliar na expressão de experiências difíceis de verbalizar, na elaboração de narrativas pessoais, na observação de padrões e na construção de novas possibilidades de ação.
A interpretação não deve ser automática. Cores, formas e figuras não possuem significados universais capazes de revelar um diagnóstico por si sós. O sentido de uma produção depende da história da pessoa, de seu contexto cultural, do momento do processo e do diálogo estabelecido no atendimento.
Musicoterapia
A musicoterapia emprega música e experiências musicais no interior de uma relação profissional. Pode incluir escuta, improvisação, canto, composição, execução instrumental, criação de canções e movimento com música. Os objetivos podem envolver comunicação, interação social, expressão emocional, cognição, motricidade, manejo de sintomas e qualidade de vida.
Ouvir uma lista de músicas para relaxar pode ser útil, mas não equivale necessariamente a musicoterapia. A modalidade profissional envolve avaliação, planejamento, acompanhamento e uso deliberado dos elementos musicais por musicoterapeuta habilitado.
Dança e terapia do movimento
A dança/movimento-terapia utiliza movimento, percepção corporal, ritmo, espaço, gesto e interação como componentes do processo. O corpo não é tratado apenas como instrumento de exercício, mas como dimensão da experiência emocional, relacional e simbólica.
As intervenções precisam respeitar dor, fadiga, deficiência, risco de queda, limitações cardiopulmonares, trauma e preferência individual. Movimento pode incluir gestos mínimos, atividades sentadas, uso de cadeira de rodas, respiração ou imaginação cinestésica, e não apenas dança em pé.
Dramaterapia
A dramaterapia combina recursos do teatro com objetivos terapêuticos. Personagens, improvisação, máscaras, histórias, jogos, objetos, encenação e distância estética permitem explorar situações sem exigir que a pessoa reproduza literalmente sua experiência.
A ficção pode ampliar possibilidades e proteger o participante de exposição excessiva. Ao mesmo tempo, cenas intensas podem ativar memórias traumáticas; por isso, preparação, consentimento, regulação emocional e encerramento adequado são indispensáveis.
Psicodrama e sociodrama
O psicodrama foi desenvolvido por Jacob Levy Moreno como uma forma de psicoterapia de ação. Sua estrutura clássica inclui aquecimento, dramatização e compartilhamento. Entre as técnicas mais conhecidas estão inversão de papéis, espelho, duplo e solilóquio.[4]
O psicodrama pode trabalhar experiências individuais e relações interpessoais. O sociodrama concentra-se mais diretamente em papéis coletivos, conflitos grupais e questões sociais. Embora possuam elementos teatrais, psicodrama e dramaterapia não são sinônimos: diferem em história, teoria, formação e procedimentos.
Escrita expressiva, poesia e biblioterapia
A escrita expressiva propõe registros estruturados sobre experiências, pensamentos e emoções. A terapia pela poesia utiliza leitura e criação poética; a biblioterapia pode empregar obras literárias selecionadas para favorecer reflexão, identificação e diálogo.
Escrever sobre eventos traumáticos não é sempre benéfico. Algumas pessoas apresentam aumento temporário de sofrimento ou não se beneficiam da exposição escrita. O método deve ser adaptado, especialmente quando há trauma complexo, dissociação, risco de violência, pouca privacidade ou crise aguda.
Como podem funcionar
Não existe um mecanismo único que explique todas as modalidades. Entre os processos propostos estão:
- externalização de experiências por imagens, sons, movimentos ou personagens;
- organização narrativa de acontecimentos fragmentados;
- comunicação não verbal ou suplementar à fala;
- experimentação de papéis e respostas possíveis;
- regulação da ativação emocional e corporal;
- fortalecimento de agência, vínculo e participação social;
- estimulação cognitiva, sensorial ou motora em determinados contextos;
- construção de sentido e conexão com memórias culturais ou comunitárias.
Esses processos são hipóteses clínicas e teóricas, não garantias de resultado. O efeito depende da modalidade, da população, do objetivo, da qualidade do atendimento, da duração, da adesão, do contexto institucional e de outros tratamentos concomitantes.
Aplicações
Terapias expressivas são utilizadas em saúde mental, hospitais, reabilitação, oncologia, cuidados paliativos, instituições educacionais, assistência social, serviços comunitários, atenção a idosos, programas para pessoas com deficiência e contextos de privação de liberdade. Podem ser individuais, familiares ou grupais.
Entre os objetivos estudados estão redução de sintomas de ansiedade ou depressão, comunicação, enfrentamento de doenças crônicas, qualidade de vida, reabilitação neurológica, interação social, expressão de luto e apoio durante tratamentos médicos. A indicação precisa ser formulada de modo específico: uma intervenção que apresenta resultados promissores em adultos com câncer não pode ser automaticamente generalizada para crianças, demência, autismo ou transtornos psiquiátricos graves.
Evidências científicas
A pesquisa sobre terapias expressivas cresceu, mas permanece marcada por grande heterogeneidade. Estudos usam modalidades, durações, profissionais, populações e medidas de resultado diferentes. Muitos possuem amostras pequenas, ausência de cegamento, controles inadequados ou descrição insuficiente das intervenções.
Revisões de arteterapia em oncologia sugerem possíveis reduções de ansiedade e depressão e melhora da qualidade de vida, mas destacam limitações metodológicas e necessidade de estudos maiores.[5] Uma revisão sobre arteterapia com adultos concluiu que existem resultados favoráveis em determinados grupos, sem base suficiente para afirmações universais.[6]
Na dança/movimento-terapia, metanálises encontraram efeitos promissores em alguns desfechos psicológicos; contudo, revisões recentes em oncologia observaram inconsistência, alto risco de viés e diferenças importantes entre terapia do movimento propriamente dita e atividades de dança ou exercício.[7][8]
A musicoterapia possui corpo de pesquisa mais amplo em certas áreas, mas os resultados variam por condição clínica e tipo de intervenção. Revisões Cochrane sobre depressão, por exemplo, indicaram possível benefício quando a musicoterapia é acrescentada ao tratamento habitual, com necessidade de maior número de ensaios e acompanhamento de longo prazo.[9]
Uma revisão e metanálise de 2024 sobre terapias artísticas criativas para adultos com câncer encontrou resultados potencialmente favoráveis em alguns desfechos, mas também heterogeneidade, amostras limitadas e incerteza quanto à qualidade da evidência.[10]
Portanto, a formulação mais rigorosa é: algumas modalidades podem ser úteis como componentes de planos de cuidado para objetivos e populações específicos, mas a evidência não autoriza promessas de cura nem a substituição indiscriminada de tratamentos estabelecidos.
Ética, segurança e acessibilidade
Atividades expressivas podem mobilizar memórias, vergonha, luto, raiva, experiências de violência e conflitos familiares. O profissional precisa reconhecer sinais de desregulação, respeitar o direito de não participar, evitar interpretações impositivas e manter encaminhamento para outros serviços quando necessário.
Produções artísticas realizadas em atendimento são dados sensíveis. Exposição, gravação, publicação ou uso acadêmico exigem consentimento específico. O fato de uma obra ter sido criada em grupo ou instituição não elimina direitos de autoria, privacidade e imagem.
Materiais também podem apresentar riscos físicos: toxicidade, alergias, objetos cortantes, volume sonoro excessivo, sobrecarga sensorial, esforço corporal e contaminação. A seleção deve considerar idade, condições clínicas, deficiência, necessidades de apoio e acessibilidade.
A acessibilidade deve fazer parte do método. Recursos podem incluir materiais táteis, descrição verbal, Libras, legendas, comunicação alternativa, instrumentos adaptados, escolhas sensoriais, pausas, iluminação adequada e atividades realizadas em diferentes posições corporais. Adaptação não significa diminuir a complexidade da experiência, mas possibilitar participação significativa.
Terapias expressivas no Brasil
Antecedentes: arte, psiquiatria e saúde mental
No Brasil, a relação entre criação artística e cuidado em saúde mental possui história anterior à consolidação das profissões contemporâneas. Osório César, no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, estudou e divulgou produções de pessoas internadas desde a década de 1920. Nise da Silveira, a partir da década de 1940, desenvolveu oficinas no Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio de Janeiro, e criou em 1952 o Museu de Imagens do Inconsciente.
As experiências de Osório César e Nise da Silveira foram decisivas para questionar práticas psiquiátricas violentas e reconhecer valor expressivo e cultural nas obras. Entretanto, não devem ser retrospectivamente identificadas, sem ressalvas, com todos os modelos atuais de arteterapia. Elas pertencem a contextos históricos, institucionais e teóricos próprios.[11][12]
Outras instituições também desenvolveram experiências com arte em hospitais e colônias psiquiátricas. Pesquisas históricas sobre a Colônia Juliano Moreira mostram que a relação entre expressão artística, psiquiatria e vida institucional foi mais ampla e complexa do que uma narrativa baseada apenas em dois pioneiros.[13]
Reforma psiquiátrica, CAPS e produção cultural
Com a Reforma Psiquiátrica e a expansão dos Centros de Atenção Psicossocial, oficinas de música, teatro, pintura, rádio, fotografia, literatura e outras linguagens passaram a integrar práticas territoriais de cuidado. Em muitos serviços, o objetivo não se limita à diminuição de sintomas: envolve convivência, autonomia, circulação pela cidade, trabalho, produção cultural e reconstrução de vínculos.
Essas atividades não devem ser automaticamente chamadas de terapias expressivas profissionais. Algumas são oficinas culturais, ações de reabilitação psicossocial ou projetos conduzidos por equipes multiprofissionais e artistas. Sua relevância pode residir precisamente em não reduzir toda produção a material clínico. Estudos brasileiros destacam a função da arte nos CAPS e sua relação com expressão, cidadania e transformação das práticas de saúde mental.[14][15]
Arteterapia no Brasil
A arteterapia brasileira desenvolveu associações regionais, cursos de especialização, publicações e práticas em saúde, educação e contextos comunitários. A literatura nacional relaciona sua formação histórica às experiências de Osório César e Nise da Silveira, ao mesmo tempo que reconhece teorias e procedimentos posteriores.[16]
Em 17 de junho de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.435, que dispõe sobre o exercício da profissão de arteterapeuta. A lei define o profissional a partir do uso terapêutico de recursos das artes visuais, música, dança, canto, teatro e literatura e enumera atribuições, como orientação de pacientes e familiares, participação em programas de saúde e atuação em colaboração com outros profissionais.[17]
A sanção ocorreu com veto parcial a três dispositivos do projeto. Por isso, informações antigas que afirmam que a arteterapia não era profissão regulamentada no Brasil ficaram desatualizadas em junho de 2026. Questões de habilitação, transição formativa, fiscalização e efeitos dos vetos devem ser verificadas diretamente na legislação vigente e em sua regulamentação posterior.
Musicoterapia no Brasil
A formação institucional em musicoterapia começou a consolidar-se no país na década de 1970. O Conservatório Brasileiro de Música abriu curso de graduação no Rio de Janeiro em 1972, e outras instituições públicas e privadas passaram a oferecer formação acadêmica.[18]
A Lei nº 14.842, de 11 de abril de 2024, passou a dispor sobre a atividade profissional de musicoterapeuta. A norma estabelece hipóteses de habilitação, incluindo graduação em Musicoterapia, diploma estrangeiro revalidado, regra transitória para pós-graduação concluída no prazo legal e comprovação de exercício anterior nas condições previstas.[19]
A União Brasileira das Associações de Musicoterapia informa que não existe conselho profissional próprio e que filiação associativa não é obrigatória para o exercício previsto em lei. A entidade mantém orientações sobre cursos, associações regionais, ética e produção científica.[20]
Psicodrama no Brasil
O psicodrama começou a circular no Brasil em meados do século XX e adquiriu maior organização a partir das décadas de 1960 e 1970. Pierre Weil publicou um dos primeiros livros brasileiros sobre o tema e participou da criação de uma entidade de psicodrama em Belo Horizonte. Posteriormente, sociedades, escolas e federações ampliaram a formação e a aplicação do método em psicoterapia, educação, organizações e trabalho comunitário.[21]
No país, o psicodrama não deve ser apresentado como simples técnica teatral. Ele possui tradição teórica própria e pode ser utilizado por profissionais de diferentes áreas, respeitando as competências legais de cada profissão e o contexto clínico ou não clínico em que a intervenção é oferecida.
Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares
Em 2017, a Portaria nº 849 do Ministério da Saúde incluiu arteterapia e musicoterapia na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde. A mesma portaria incluiu biodança, dança circular e outras práticas.[22]
A inclusão na política pública significa que essas práticas podem integrar ofertas do SUS conforme organização, financiamento e capacidade local. Ela não demonstra, por si só, eficácia para todas as doenças, não cria equivalência entre as modalidades e não autoriza qualquer profissional a ultrapassar suas competências.
O Ministério da Saúde descreve a arteterapia como prática expressiva que pode utilizar pintura, colagem, modelagem, poesia, dança, fotografia, expressão corporal, teatro, sons e música em processos individuais ou grupais.[23] Essa definição administrativa é ampla e não deve apagar a existência de formações e identidades profissionais específicas.
Formação e escolha de profissionais
“Terapias expressivas” não corresponde, no Brasil, a uma licença profissional única. Arteterapia e musicoterapia possuem leis federais próprias; psicologia, medicina, terapia ocupacional, enfermagem e outras profissões possuem conselhos e normas específicos; psicodrama, dramaterapia, dança/movimento-terapia e terapia intermodal podem aparecer em formações distintas.
Antes de iniciar atendimento, é prudente verificar:
- formação de base e formação específica do profissional;
- experiência com a população ou condição envolvida;
- existência de supervisão e compromisso ético;
- objetivos, duração, custos e critérios de avaliação;
- como serão tratados sigilo, imagens, gravações e obras produzidas;
- articulação com outros profissionais quando necessária;
- acessibilidade do espaço, dos materiais e da comunicação.
Promessas de cura, interrupção de medicamentos sem avaliação médica, interpretações rígidas de desenhos ou exigência de exposição pública das produções são sinais de alerta.
Desafios brasileiros
O campo brasileiro apresenta desigualdade regional de formação e oferta. Cursos, serviços e associações concentram-se em determinados centros urbanos, enquanto usuários do SUS e populações rurais, indígenas, quilombolas e periféricas enfrentam barreiras de acesso.
Outro desafio é produzir evidências contextualizadas. Muitos estudos nacionais são relatos de experiência, pesquisas qualitativas ou trabalhos com amostras pequenas. Esses desenhos são valiosos para compreender processos, significados e contextos, mas não respondem sozinhos a perguntas sobre eficácia comparativa.
Também é necessário distinguir cuidado, cultura e medicalização. Projetos artísticos de pessoas com sofrimento psíquico ou deficiência não devem ser valorizados apenas por um suposto efeito terapêutico. Arte pode constituir profissão, linguagem, direito cultural, produção de conhecimento e participação política.
Perspectivas antirracistas, decoloniais, feministas e da deficiência vêm ampliando o debate. Elas questionam interpretações universais de símbolos, reconhecem saberes comunitários e examinam como raça, gênero, classe, território e capacitismo influenciam diagnóstico, acesso ao cuidado e reconhecimento das expressões culturais.
Considerações finais
Terapias expressivas formam um campo plural, situado entre arte, saúde, educação, relações comunitárias e produção de sentido. Seu potencial reside em ampliar formas de comunicação e participação, mas sua utilização exige precisão terminológica, formação, ética e avaliação.
No Brasil, a trajetória passa pelas experiências de Osório César e Nise da Silveira, pela Reforma Psiquiátrica, pelos CAPS, pela organização profissional da arteterapia e da musicoterapia, pelo desenvolvimento do psicodrama e pela incorporação de práticas à política do SUS. As mudanças legais de 2024 e 2026 tornam especialmente importante consultar informações atualizadas sobre habilitação e exercício profissional.
A abordagem mais responsável evita dois extremos: rejeitar a arte como se não pudesse participar do cuidado ou apresentá-la como solução universal. Intervenções expressivas podem integrar planos terapêuticos úteis quando são indicadas para objetivos claros, realizadas com segurança e articuladas às necessidades concretas de cada pessoa.
Referências
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Nota de origem e licença: artigo traduzido, reescrito, reorganizado e substancialmente ampliado a partir do verbete “Expressive therapies”, da Wikipédia em inglês, consultado em 21 jul. 2026. O texto original encontra-se em Wikipedia — Expressive therapies e é distribuído sob a licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional. A presente adaptação acrescenta fontes, atualizações e uma seção específica sobre o Brasil e deve permanecer sob licença compatível quando reutilizada como obra derivada.